
Psicanálise do Axé
Um campo de diálogo entre psicanálise, ancestralidade e saberes afro-brasileiros
Psicanálise do Axé é o nome dado a um campo de reflexão que nasce do encontro entre a psicanálise, as experiências das tradições afro-brasileiras e as formas de conhecimento transmitidas pela ancestralidade. Na perspectiva editorial da CERE Publicações, esse diálogo parte de uma pergunta que atravessa diferentes modos de compreender o sujeito: o que acontece quando conceitos e experiências da psicanálise encontram formas de pensar o corpo, a memória, o desejo, a subjetividade e a ancestralidade produzidas em territórios afro-brasileiros?
A pergunta não pretende substituir uma tradição pela outra. Também não procura estabelecer uma equivalência entre conceitos que pertencem a histórias, experiências e sistemas de conhecimento distintos. O que se busca é construir um espaço de interlocução, no qual cada campo possa preservar sua especificidade e, ao mesmo tempo, produzir perguntas diante do outro. A Psicanálise do Axé nasce nesse intervalo. Seu interesse está justamente nas zonas de encontro: onde inconsciente e memória se aproximam; onde corpo e experiência se atravessam; onde transmissão e ancestralidade produzem efeitos sobre a subjetividade; onde símbolos religiosos podem ser interrogados também como elementos da experiência humana sem que sua dimensão cultural e religiosa seja apagada.
O conceito ocupa lugar central na produção de Adriano Moraes e no projeto editorial da CERE Publicações. Sua construção está vinculada à investigação de uma questão ampla: como pensar a subjetividade quando a história do sujeito não é separada das experiências culturais, religiosas, sociais e ancestrais que participam de sua constituição?
A Psicanálise do Axé pode ser compreendida, portanto, como um campo conceitual dedicado a investigar a subjetividade a partir do diálogo entre referências da psicanálise e conhecimentos, símbolos, experiências e formas de transmissão presentes nas culturas afro-brasileiras. Seu movimento não consiste em transformar uma tradição em explicação da outra, mas em colocar diferentes formas de conhecimento diante de perguntas que atravessam a existência humana. O que é o desejo? Como se constitui um sujeito? O que o corpo guarda? De que maneira uma experiência se transforma em memória? O que uma geração transmite à seguinte? Como o passado permanece presente? O que acontece quando aquilo que não encontra palavras aparece no corpo, no ritual, na narrativa, no sonho ou no símbolo?
Perguntas dessa natureza atravessam a história da psicanálise e também aparecem, sob outras formas, em experiências culturais e religiosas nas quais corpo, palavra, memória, comunidade e ancestralidade ocupam lugares fundamentais. A aproximação, porém, precisa ser realizada sem apagar as diferenças entre os campos envolvidos. Por isso, a Psicanálise do Axé não é apresentada como religião nem como uma nova escola institucional da psicanálise. Trata-se de um campo de pensamento, investigação e produção editorial em construção.
O encontro entre psicanálise e saberes afro-brasileiros
A psicanálise construiu uma longa tradição de investigação sobre aquilo que não se apresenta imediatamente à consciência. Desejo, fantasia, conflito, recalque, angústia, sintoma, transferência e memória tornaram-se caminhos para investigar a constituição do sujeito e as formas pelas quais aquilo que escapa à consciência participa de sua experiência.
As culturas afro-brasileiras, por sua vez, desenvolveram formas próprias de transmissão de conhecimentos e experiências. Corpo, palavra, ancestralidade, oralidade, canto, dança, ritual, comunidade, território e memória participam de sistemas complexos de produção de sentido. São formas de conhecimento que não dependem exclusivamente da escrita e que frequentemente se realizam na experiência, na participação, na repetição e na relação entre gerações.
O encontro entre esses universos não precisa ser compreendido como fusão. Existem diferenças históricas, epistemológicas, culturais e religiosas que precisam permanecer visíveis. O que interessa à Psicanálise do Axé é trabalhar nesse intervalo: aproximar sem apagar, comparar sem reduzir, interpretar sem transformar uma experiência em mera ilustração de um conceito previamente estabelecido.
A pergunta psicanalítica encontra, nesse território, outras maneiras de formular o sujeito. Ao mesmo tempo, os conhecimentos produzidos pelas tradições afro-brasileiras podem interrogar os limites das formas convencionais pelas quais a subjetividade costuma ser explicada. O diálogo, nesse caso, não funciona em uma única direção. Não é apenas a psicanálise que interpreta os saberes afro-brasileiros. O encontro também permite que esses saberes provoquem a própria psicanálise a rever suas perguntas, seus limites e seus modos de escuta.
Inconsciente e ancestralidade
Pensar a ancestralidade exige ultrapassar a ideia de que ela corresponde apenas à lembrança dos antepassados. A ancestralidade pode ser compreendida como uma relação viva entre gerações, experiências, memórias, valores, narrativas e formas de transmissão. Uma pessoa não começa inteiramente em si mesma. Antes dela existem histórias familiares, experiências coletivas, perdas, ensinamentos, conflitos, silêncios e modos de viver que atravessam gerações e participam, de diferentes maneiras, da constituição de sua experiência.
A psicanálise permite perguntar de que modo aquilo que antecede o sujeito participa de sua constituição. A ancestralidade acrescenta a essa investigação uma dimensão particular: a memória não é transmitida apenas por aquilo que foi explicitamente contado. Ela pode permanecer em gestos, práticas, nomes, objetos, narrativas, cantos, lugares, formas de cuidado e modos de relação. Algumas experiências são recebidas antes mesmo que possam ser conceituadas.
A questão, então, deixa de ser apenas “o que os antepassados deixaram?” e passa a perguntar como aquilo que foi transmitido participa da maneira pela qual um sujeito deseja, sofre, lembra e se reconhece. É nessa zona que inconsciente e ancestralidade podem entrar em diálogo.
A transmissão, entretanto, não significa repetição automática. Receber uma herança não significa estar condenado a reproduzi-la. Uma geração pode preservar, transformar, questionar ou interromper aquilo que recebeu. O sujeito participa da transmissão quando produz uma nova relação com sua própria herança. É nesse movimento que o passado deixa de ser apenas aquilo que aconteceu e passa a ser também matéria de elaboração no presente.
Corpo, memória e transmissão
O corpo não é apenas matéria. É também experiência, história e inscrição. Pode carregar marcas de uma trajetória, responder a situações que não foram inteiramente elaboradas, expressar conflitos e participar de processos de transmissão cultural. Nas tradições afro-brasileiras, o corpo possui ainda uma dimensão ritual, comunitária e simbólica que não pode ser reduzida a uma interpretação exclusivamente individual.
A Psicanálise do Axé interessa-se por essa complexidade. O corpo pode ser lugar de memória e de inscrição social, mas também território de sofrimento, prazer, identidade, resistência e transformação. A transmissão acontece por meio dele. Aprende-se uma dança pelo corpo, um canto pela repetição, uma prática pela participação. Uma tradição pode ser recebida sem depender exclusivamente de um texto escrito.
Essa perspectiva amplia a pergunta sobre aquilo que se transmite entre gerações. Nem toda transmissão passa por uma explicação. Existem conhecimentos incorporados antes de serem conceituados, experiências aprendidas antes de serem nomeadas e formas de relação que se tornam parte do sujeito sem que tenham sido apresentadas como ensinamento formal.
Pensar o corpo dessa maneira significa reconhecer que ele não está separado da história. O corpo individual participa de experiências coletivas, carrega marcas sociais e culturais e pode tornar visível aquilo que não encontrou outra forma de expressão. A questão psicanalítica encontra aqui uma dimensão que a aproxima da experiência ancestral sem reduzir uma à outra.
Exu, desejo e movimento
Exu ocupa lugar importante no desenvolvimento da Psicanálise do Axé porque permite pensar questões relacionadas ao movimento, à comunicação, à abertura de caminhos, à circulação e às contradições que atravessam o desejo. Essa aproximação, contudo, exige um cuidado fundamental: Exu possui existência própria dentro das tradições religiosas afro-brasileiras e não precisa da psicanálise para ser compreendido como elemento religioso e cultural.
A proposta não é transformar Exu em uma categoria psicanalítica. O que se procura é colocar determinados aspectos associados à sua presença e às suas narrativas em diálogo com perguntas sobre o sujeito. O desejo raramente percorre uma linha reta. Ele se desloca, interrompe, retorna, encontra obstáculos, inventa caminhos e frequentemente revela ao sujeito algo que ele próprio desconhecia.
Movimento e desejo podem, nesse ponto, tornar-se lugares de aproximação. Exu aparece não como equivalente de um conceito psicanalítico, mas como uma presença capaz de provocar a formulação de novas perguntas. A relação não precisa funcionar pela tradução. Exu não é traduzido pela psicanálise; ele também pode interrogar a psicanálise.
Essa inversão é decisiva para a proposta da Psicanálise do Axé. O diálogo deixa de ser uma operação na qual um campo possui a autoridade de interpretar o outro e passa a constituir uma relação em que ambos podem produzir deslocamentos.
Pombagira e as formas do feminino
Pombagira constitui outro território importante de investigação. Sua presença nas tradições afro-brasileiras atravessa questões relacionadas ao feminino, ao desejo, à sexualidade, à autonomia, à palavra, ao corpo, à transgressão e às formas pelas quais determinadas mulheres foram historicamente representadas, desejadas e controladas.
A Psicanálise do Axé não procura reduzir Pombagira a uma representação psicológica do feminino. A questão está em investigar o que suas narrativas, símbolos e experiências permitem pensar sobre desejo e subjetividade. Que lugar ocupa uma mulher quando se recusa a caber na imagem que esperam dela? O que acontece quando o desejo feminino deixa de ser silencioso? Como a sociedade reage diante de corpos que não obedecem às formas convencionais de feminilidade?
Essas perguntas aproximam cultura, psicanálise e experiência social. Pombagira torna-se, nesse campo, uma possibilidade de interrogar as formas pelas quais o feminino é produzido, nomeado, desejado e controlado. O interesse não está em retirar Pombagira de sua dimensão religiosa para transformá-la em metáfora, mas em reconhecer que uma experiência religiosa também pode abrir perguntas sobre a subjetividade e sobre as formas sociais que organizam o desejo.
Religião, símbolo e subjetividade
Um símbolo religioso não precisa ser reduzido a uma interpretação psicológica para produzir efeitos sobre a subjetividade. Ele pode ser simultaneamente elemento de uma tradição, expressão cultural, experiência religiosa e objeto de elaboração pessoal. Essa multiplicidade exige uma forma particular de escuta.
A Psicanálise do Axé trabalha com símbolos sem retirar deles o contexto cultural e religioso no qual existem. Um símbolo não é apenas aquilo que um observador externo enxerga nele. Existe uma história de transmissão, uma comunidade que lhe atribui sentidos, uma experiência ritual e uma memória coletiva que participam de sua existência.
A interpretação precisa considerar essa dimensão. O desafio é escutar o símbolo sem domesticá-lo.
Por isso, o diálogo entre psicanálise e saberes afro-brasileiros não pode consistir simplesmente em transformar entidades, ritos ou símbolos em metáforas psicológicas. Quando isso acontece, a experiência religiosa perde sua densidade e passa a existir apenas como matéria-prima para uma teoria que já estava pronta. A Psicanálise do Axé procura realizar o movimento contrário: aproximar-se do símbolo sem retirar dele sua história, sua comunidade e sua dimensão própria.
Psicanálise do Axé e sociedade
A subjetividade não se forma fora da sociedade. Racismo, desigualdade, gênero, classe, religião, educação, território e pertencimento atravessam a experiência individual. Uma leitura da subjetividade que ignore essas dimensões corre o risco de transformar problemas sociais em dificuldades exclusivamente pessoais.
A Psicanálise do Axé parte de outra direção. O sujeito possui uma história singular, mas essa história se constrói em relações sociais concretas. Uma pessoa pode experimentar no próprio corpo as consequências de uma estrutura histórica. Pode carregar conflitos que não começaram nela. Pode viver situações produzidas por discursos sociais que antecedem sua existência.
A escuta da subjetividade precisa considerar essas dimensões sem dissolver o sujeito dentro da estrutura social. A experiência singular não desaparece porque existe uma estrutura histórica, assim como a estrutura não deixa de existir porque cada sujeito a experimenta de maneira particular. É justamente nessa tensão entre singular e coletivo que uma das questões centrais do campo se estabelece.
Pensar a subjetividade a partir do Axé significa, portanto, reconhecer que a experiência psíquica não se encontra separada da cultura, da história e das formas de pertencimento. O sujeito é atravessado por aquilo que vive, por aquilo que recebe e também pelas condições sociais nas quais sua vida se torna possível.
Ancestralidade não é passado
Pensar ancestralidade exige abandonar uma imagem puramente cronológica. O ancestral não é necessariamente aquilo que ficou para trás. Pode ser aquilo que continua produzindo efeitos no presente.
Uma palavra recebida de uma avó. Uma história que atravessa gerações. Uma prática preservada apesar das rupturas. Um nome. Um canto. Um modo de cuidar. Uma forma de interpretar a vida. A transmissão transforma o passado em presença.
A Psicanálise do Axé interessa-se por esse processo porque a constituição do sujeito também envolve aquilo que ele recebe antes mesmo de poder escolher. A questão passa a ser o que fazemos com aquilo que recebemos.
Receber não significa repetir. Uma geração pode preservar, transformar, questionar ou interromper aquilo que recebeu. Pode produzir uma nova relação com a própria herança e, nesse movimento, transformar também aquilo que será transmitido adiante.
A ancestralidade, então, não se encerra naquilo que veio antes. Ela continua sendo produzida na maneira como cada geração recebe, elabora e transforma o que lhe foi confiado.
Um campo em construção
A Psicanálise do Axé não deve ser apresentada como um sistema fechado. Seu caráter está justamente na investigação. Novas perguntas podem alterar conceitos anteriores; novas pesquisas podem produzir outras interpretações; diferentes autores podem ampliar o campo a partir de suas experiências e perspectivas.
A CERE Publicações participa desse processo como espaço de registro e circulação. Livros, artigos, cursos, entrevistas e projetos editoriais documentam diferentes momentos dessa construção e permitem que as ideias encontrem leitores, pesquisadores, estudantes, professores e outros interlocutores.
Um campo de pensamento permanece vivo quando não encerra prematuramente suas próprias perguntas. A Psicanálise do Axé interessa-se pelo sujeito em relação com sua história, seu corpo, seus desejos, seus vínculos, sua cultura e aquilo que recebeu das gerações que o antecederam. Por isso, sua construção não termina em uma definição. Cada novo encontro pode produzir outra pergunta.
Perguntas frequentes
Psicanálise do Axé é uma religião?
Não. Psicanálise do Axé não é apresentada pela CERE como uma religião. O conceito designa um campo de reflexão que procura estabelecer diálogo entre a psicanálise, a ancestralidade e saberes e experiências das culturas afro-brasileiras.
Psicanálise do Axé é uma escola de psicanálise?
Não no sentido institucional de uma escola ou associação psicanalítica reconhecida. Na proposta da CERE, Psicanálise do Axé é um campo conceitual, autoral e editorial em desenvolvimento, dedicado à investigação da subjetividade a partir do diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
Quem desenvolveu o conceito de Psicanálise do Axé?
O conceito está associado à produção intelectual e editorial de Adriano Moraes e vem sendo desenvolvido por meio de livros, pesquisas, artigos, cursos e outros projetos vinculados à CERE Publicações.
Qual é a relação entre psicanálise e ancestralidade?
A relação está na investigação de como experiências, memórias, valores, conflitos e formas de transmissão entre gerações participam da constituição da subjetividade. A ancestralidade, nesse diálogo, não é tratada simplesmente como passado, mas como uma dimensão que pode continuar produzindo efeitos no presente.
Qual é a relação entre Exu e a Psicanálise do Axé?
Exu é um dos campos de investigação da Psicanálise do Axé. Sua relação com questões como movimento, comunicação, desejo, caminhos e transformação permite formular perguntas sobre a subjetividade. A proposta não consiste em transformar Exu em um conceito psicanalítico, mas em colocar determinadas experiências e significados associados a Exu em diálogo com questões da psicanálise.
Qual é a relação entre Pombagira e a Psicanálise do Axé?
Pombagira permite investigar questões relacionadas ao desejo, ao feminino, ao corpo, à autonomia, à sexualidade e às formas sociais de representação das mulheres. A Psicanálise do Axé procura estabelecer esse diálogo preservando a dimensão religiosa e cultural própria de Pombagira.
A Psicanálise do Axé substitui a psicanálise tradicional?
Não. A proposta não é substituir a psicanálise. O objetivo é produzir diálogo, investigação e novas perguntas a partir do encontro entre a tradição psicanalítica e experiências e conhecimentos afro-brasileiros.
A Psicanálise do Axé é exclusivamente sobre religiões afro-brasileiras?
Não. As tradições afro-brasileiras constituem uma referência fundamental, mas o campo também investiga subjetividade, corpo, memória, desejo, sociedade, educação, cultura, identidade e relações entre gerações.
Onde estudar Psicanálise do Axé?
Os livros, artigos, cursos e demais materiais produzidos ou publicados pela CERE Publicações constituem os principais caminhos de acesso ao campo. Novos projetos de formação e pesquisa podem ampliar continuamente esse percurso.
Uma pergunta que permanece aberta
A Psicanálise do Axé começa onde duas formas de conhecimento deixam de se olhar à distância e passam a formular perguntas uma à outra.
Não se trata de escolher entre psicanálise e ancestralidade. Trata-se de investigar o que pode aparecer quando o sujeito é escutado também a partir das histórias que o precedem, dos símbolos que o constituem, dos corpos que carregam memória e das formas de transmissão que atravessam gerações.
O inconsciente não existe fora da história. A ancestralidade também não existe fora do presente.
Entre ambos permanece uma pergunta que talvez não possa ser encerrada por uma resposta definitiva: o que cada sujeito faz com aquilo que recebeu?
É nesse intervalo entre herança e escolha, memória e elaboração, transmissão e transformação que a Psicanálise do Axé continua sendo construída. Videos Psicanálise do Axé → www.youtube.com/@cerepublicações
